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Jornada de trabalho irregular envelhece o cérebro? Entenda a relação com o sono e os ruídos

Mulher demonstra cansaço e estresse enquanto trabalha no computador durante a noite, com a mão sobre o rosto diante da tela.

Trabalhar à noite, alternar frequentemente os horários ou manter uma jornada irregular pode afetar mais do que a disposição no dia seguinte. Essas mudanças interferem na regularidade do descanso e podem dificultar a adaptação do organismo, principalmente quando o profissional precisa permanecer acordado durante a noite e dormir durante o dia.

Nesse cenário, os barulhos externos podem dificultar ainda mais a qualidade do sono. Enquanto o trabalhador noturno tenta descansar, trânsito, obras, buzinas, vizinhos e outras atividades cotidianas continuam acontecendo, o que pode favorecer interrupções e tornar o sono menos restaurador.

Quando esse padrão se repete, a combinação entre jornada irregular, alterações no ritmo de sono e descanso insuficiente pode repercutir em funções como memória, atenção e raciocínio. Por isso, entender essa relação ajuda a reconhecer os fatores que podem prejudicar o descanso e a buscar condições mais favoráveis para a recuperação do organismo, especialmente entre quem precisa dormir durante o dia.

Como uma jornada de trabalho irregular interfere no organismo?

O organismo humano possui ritmos biológicos que ajudam a regular diferentes funções ao longo das 24 horas, entre elas os períodos de sono e vigília. Dessa forma, quando uma pessoa trabalha durante a noite e precisa dormir durante o dia, sua rotina profissional pode entrar em conflito com os sinais naturais que ajudam o corpo a determinar quando é hora de permanecer alerta e quando é momento de descansar.

Esse desalinhamento pode se tornar ainda mais significativo quando os turnos mudam com frequência ou quando o trabalhador não consegue manter períodos regulares e suficientes de sono.

“One of the immediate adverse health consequences is a decline in the amount and quality of sleep for workers with nonstandard hours because these schedules (e.g., night shifts) counter our circadian rhythm.”

PLOS ONE

Como consequência, além da dificuldade para adormecer ou permanecer dormindo, pode haver acúmulo de cansaço e redução da qualidade do descanso. Revisões científicas sobre o trabalho em turnos relacionam justamente a dessincronização do ritmo circadiano e a deficiência de sono a diferentes repercussões para a saúde.

Além disso, a irregularidade da própria jornada pode dificultar a criação de uma rotina de descanso consistente. Portanto, não é apenas a quantidade de horas trabalhadas ou dormidas que merece atenção, mas também em quais horários essas atividades acontecem e com que regularidade o organismo consegue descansar.

Afinal, jornadas irregulares podem envelhecer o cérebro?

A expressão “envelhecer o cérebro” chama atenção, mas precisa ser interpretada com cuidado. Isso porque as evidências disponíveis não permitem afirmar que trabalhar em horários irregulares provoca, necessariamente, um envelhecimento cerebral precoce. Por outro lado, estudos vêm identificando associações entre esse tipo de jornada e alterações em funções cognitivas importantes, o que ajuda a entender de onde surgiu essa preocupação.

Nesse sentido, uma pesquisa longitudinal realizada com trabalhadores de meia-idade e idosos na Coreia do Sul identificou uma associação entre a irregularidade persistente dos horários de trabalho e maior ocorrência de comprometimento cognitivo. Essa relação permaneceu mesmo após os pesquisadores considerarem outros fatores que poderiam influenciar os resultados, indicando que a organização da jornada também merece atenção quando se discute saúde cognitiva.

“Our findings confirmed that irregularity in working hours was correlated with the risk of cognitive decline. This effect was robust even when a number of possible confounding factors such as sex, education, household income, and social activity were adjusted.”

PubMed

Além disso, os possíveis impactos não parecem se restringir a uma única capacidade cerebral. Uma meta-análise com trabalhadores noturnos e em turnos encontrou associação entre esse tipo de rotina e menor desempenho em funções como velocidade de processamento, memória de trabalho, vigilância psicomotora, controle cognitivo e atenção visual.

Dessa forma, jornadas que interferem repetidamente nos períodos habituais de atividade e descanso podem estar relacionadas a dificuldades em diferentes processos necessários para o funcionamento cognitivo.

Ainda assim, é importante não transformar essa associação em uma relação direta de causa e efeito. Embora uma revisão sistemática tenha identificado possíveis efeitos negativos do trabalho noturno sobre atenção, memória e capacidade de inibir respostas, ainda existem incertezas sobre a extensão das consequências cognitivas após muitos anos de exposição. Portanto, os resultados não significam que toda pessoa que trabalha à noite ou em horários irregulares desenvolverá comprometimento cognitivo.

Por que o trabalhador noturno pode ficar mais exposto aos ruídos durante o sono?

Para quem trabalha durante a noite, o desafio não termina quando o expediente acaba. Afinal, depois de permanecer acordado durante a madrugada, o profissional precisa recuperar o organismo justamente durante o dia, período em que as atividades ao redor voltam a se intensificar.

Assim, enquanto ele tenta dormir, o trânsito aumenta, obras começam, comércios funcionam, entregas são realizadas e cresce a movimentação nas ruas e nos edifícios. Consequentemente, além de lidar com a alteração dos horários naturais de sono e vigília provocada pela jornada noturna, esse trabalhador pode encontrar um segundo obstáculo para descansar: o ruído do ambiente diurno.

Homem incomodado com barulho e não conseguindo dormir. Ele tapa as orelhas com o travesseiro.

Sons de veículos, buzinas, máquinas, obras ou da própria vizinhança podem dificultar o adormecimento e, quando ocorrem durante o sono, favorecer interrupções que reduzem sua continuidade. Entretanto, isso não significa que somente os barulhos capazes de acordar completamente uma pessoa possam interferir no descanso.

Mesmo quando não há um despertar prolongado, o organismo pode continuar reagindo aos estímulos sonoros. Segundo diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição ao ruído durante o sono pode provocar despertares, microdespertares, alterações nos estágios do sono e respostas fisiológicas.

Por esse motivo, permanecer várias horas na cama não significa, necessariamente, ter dormido bem. Se o descanso sofre interferências sucessivas ao longo desse período, sua capacidade de recuperação pode ser comprometida. Dessa maneira, para o trabalhador noturno, não importa apenas quando e por quanto tempo ele consegue dormir, mas também em quais condições esse sono acontece.

Como a jornada noturna, ruído e falta de sono podem afetar a saúde cognitiva?

É justamente a qualidade desse descanso que conecta a jornada noturna e os ruídos aos possíveis prejuízos cognitivos. Afinal, o trabalho durante a noite já pode dificultar a manutenção de horários regulares de sono. Quando o profissional finalmente tenta descansar durante o dia, a presença constante de ruídos pode acrescentar novas interrupções a uma rotina de sono que já enfrenta desafios.

Mulher deitada na cama segurando a cabeça com as mãos, demonstrando desconforto com barulho para dormir

Dessa forma, os dois fatores podem atuar sobre o mesmo ponto, embora de maneiras diferentes. A jornada noturna interfere no horário e na regularidade do descanso, enquanto o ruído pode prejudicar o adormecimento, a continuidade e a qualidade desse sono. Quando essas condições se repetem, aumenta a possibilidade de acumular períodos de descanso insuficiente ou pouco restaurador.

É nesse contexto que a falta de sono se torna especialmente importante. Quando o organismo não consegue descansar adequadamente de forma recorrente, podem surgir dificuldades de atenção, memória, raciocínio e outras alterações cognitivas. Portanto, os possíveis prejuízos não devem ser atribuídos isoladamente ao trabalho noturno ou ao ruído, mas compreendidos dentro de uma combinação de fatores que pode comprometer repetidamente o sono.

Portanto, quando se fala no possível “envelhecimento do cérebro” associado às jornadas irregulares, a qualidade do sono ocupa uma posição central nessa discussão. Quanto mais a jornada e as condições acústicas do ambiente dificultam um descanso suficiente e restaurador, maior pode ser o impacto acumulado da privação ou fragmentação do sono sobre o funcionamento cognitivo.

Sono ruim pode afetar memória, atenção e raciocínio?

Essa relação fica mais clara quando entendemos o papel do sono na recuperação do organismo. Dormir não significa simplesmente “desligar” o cérebro. Durante esse período, ocorrem processos importantes para a regulação do corpo e para o funcionamento adequado de diferentes capacidades cognitivas.

Por isso, quando o descanso é insuficiente ou sofre interrupções frequentes, os efeitos podem aparecer também durante o período em que a pessoa está acordada. A perda recorrente de sono está relacionada a alterações cognitivas e de humor e, no cotidiano, pode se manifestar por meio de dificuldade de concentração, menor estado de alerta, problemas de memória e pior desempenho em atividades que exigem respostas rápidas.

“Health issues stemming from severe sleep deprivation and low sleep quality due to nonstandard work schedules have been labeled Shift Work Sleep Disorder (SWSD) by academics and experts in the medical field. People with SWSD tend to report the following symptoms: trouble sleeping, excessive sleepiness, and tiredness.”

PLOS ONE

Consequentemente, cuidar da qualidade do sono se torna especialmente importante para trabalhadores noturnos. Embora nem sempre seja possível modificar a jornada profissional, reduzir os fatores que dificultam o descanso pode ajudar a evitar que uma rotina naturalmente desafiadora seja agravada por interrupções que poderiam ser controladas.

Como melhorar a qualidade do sono de quem trabalha no período noturno?

Nem sempre é possível escolher o próprio horário de trabalho, especialmente para profissionais que precisam manter suas atividades durante a madrugada. Nesses casos, criar horários de descanso tão regulares quanto possível, reduzir a luminosidade do quarto e evitar interrupções desnecessárias são medidas que podem favorecer um ambiente mais adequado ao sono. No entanto, quando o descanso acontece durante o dia, existe outro fator que merece atenção: o barulho vindo de fora da residência.

Quando o incômodo é provocado pelo trânsito, por obras, estabelecimentos ou pela movimentação da rua, apenas fechar uma janela convencional pode não proporcionar o conforto acústico necessário. Nesse cenário, janelas antirruído podem ajudar a reduzir a transmissão dos sons externos para o quarto. Além disso, é importante observar as portas, principalmente quando o ruído também chega por corredores, áreas comuns ou outros ambientes da residência.

Qualidade do sono merece ainda mais atenção em jornadas irregulares

Trabalhar em horários alternativos faz parte da realidade de milhões de profissionais e, em muitas atividades, o trabalho noturno é indispensável. Entretanto, pesquisas indicam que jornadas irregulares e trabalho em turnos podem estar associados a pior qualidade do sono e a alterações em determinadas funções cognitivas. 

Nesse cenário, o descanso deixa de ser apenas uma questão de quantidade de horas. A qualidade e a continuidade do sono também importam.

Homem dormindo profundamente em uma cama com lençóis brancos.

Para quem precisa dormir durante o dia, os ruídos externos podem representar uma dificuldade adicional justamente no período reservado à recuperação. Trânsito, obras e movimentações cotidianas não acompanham o horário de descanso do trabalhador noturno e podem favorecer interrupções ou alterações no sono.

Por isso, além de manter hábitos que favoreçam uma rotina de descanso mais consistente, vale observar as condições acústicas do quarto. Quando o ruído externo é recorrente, investir em medidas para reduzir sua entrada, incluindo janelas e portas antirruído quando adequadas ao imóvel, pode contribuir para tornar o ambiente mais silencioso e favorável a um sono de melhor qualidade.

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